Matrix: utopias tecnológicas e vida real

“Você tem que entender, a maioria das pessoas não esta pronta para ser desconectada. E tantos deles estão tão invertes, tão dependentes do sistema que eles lutarão para protegê-lo.” – Morpheus, Matrix.

Essas são palavras do Morpheus, defensor do último grupo de humanos, em um mundo onde tudo é controlado por máquinas (computadores) conscientes, a Matrix. Acho que você já deve ter ouvido essa história. Calma, não estou falando da nossa sociedade (ainda não…). Mas recentemente me deparei com uma reflexão que me fez retomar algumas ideias que eu tinha, desde quando assisti o filme Matrix (quem nunca viu, vale a pena!).

Muita gente lembra de Matrix como: “Ah, aquele filme do Keanu Reeves”. É esse mesmo, contudo andei pensando num aspecto do filme que talvez na época em que assisti pela primeira vez, ainda não estivesse pronto pra entender. A Matrix é uma “realidade” criada por computadores. A Matrix esconde a realidade dos seres humanos, permitindo que eles vivam uma vida simulada, controlada mas muito convincente. Não estou querendo criar nenhum tipo de teoria conspiracionistas ou sobre futuro apocalíptico. Mesmo porque acredito piamente no desenvolvimento técnologico, como mecanismo para gerar bem-estar. A ideia é tentar entender que aspectos da vida moderna acabaram nos aproximando da realidade absurda retratada em Matrix.

O principal aspecto que me trouxe essa reflexão, foi a segmentação da informação em nosso mundo virtual (internet, redes sociais, etc.). No ímpeto de nos conectar com o mundo (acho super válida a evolução que tivemos nos mecanismos de comunicação, inclusive é que um dos aspectos que me faz um apaixonado por tecnologia), temos cada dia mais relativizado nossa realidade. O que quero dizer com isso, os mecanismos digitais sabem tanto sobre nós que nos entregam somente aquilo que nos gostamos. Convivemos com reflexos, de nós mesmos. Ouvimos a todo tempo o eco da nossa própria voz.

Você pode me dizer: “Perfeito! Terei uma vida feliz, com só aquilo que gosto”. Será? Será que nossa existência se baseia na aceitação, e não no gerenciamento e desenvolvimento através dos conflitos e riscos. Me pergunto se não tem nada estranho nesse mundo onde temos que lidar com apenas o que nos agrada. E por que isso pode ser preocupante? Não lidar com “outras realidades” não estaria nos deixando cada vez mais manipuláveis. E talvez até explique os nossos extremismos ao lidar com opiniões divergentes.

Caminhamos para um contexto em  que não estamos cientes das realidades do mundo. Ou melhor estamos cientes, contudo é mais confortável não fazer nada a respeito. Supostas verdades que são aceitas por todos, é a ideia de hypernormalisation, termo apresentado no livro: Everything was Forever, Until it was No More: The Last Soviet Generation (2006, Yurchak). São diversas as perspectivas políticas, financeiras e principalmente sociais geradas por utopias tecnológicas, nesse contexto real versus virtual (algumas dessas reflexões são muito bem apresentadas também na série Black Mirror).

Mas deixando de lado o merchandising (mesmo porque eu nem recebo pra isso). Meu sentimento foi de que estamos presos, não podemos ver além, mas certamente há mais, muito mais lá fora. Lidamos com esse paradoxo todo o dia e até fiquei me perguntando se não seria contraditório escrever (na internet) sobre essa discussão. Fiquei inicialmente meio chocado, mas como só ficar chocado não resolve nada. Tenho buscado entender melhor e encontrar algum equilíbrio sobre esse assunto. Foi aí que voltei ao filme Matrix. E como reflexão deixo as sábias palavras de Morpheus ao instruir Neo sobre a Matrix: “Ninguém pode dizer o que é a Matrix. Você deve ver por si mesmo!”. Cada um deve ser “o escolhido” é experimentar por si mesmo. A escolha é de cada um de nós: Deixamos como está e vivemos a “nossa vida”? Ou estamos dispostos a descobrir até onde vai a Matrix?

Engenheiro eletricista, professor de inglês, DJ, empreendedor, faixa roxa e instrutor de Jiu Jitsu, geek e, acima de tudo, caçador de sonhos!

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