O dia em que escrevi sobre o Miss Brasil

A baiana de 21 anos, representante do estado do Paraná, foi a vencedora do concurso de beleza mais tradicional do país. No último final de semana a estudante de marketing se tornou Miss Brasil 2016

É mais ou menos assim que começaram a maioria das reportagens e textos que vi sobre o tema essa semana. Mas ao saber da notícia, fiquei bem curioso sobre o por quê de todas as reportagens destacarem o fato da modelo ser negra. Obviamente não sou nenhum expert em concurso de beleza, mas pensando no contexto Brasil deve ser comum ter a a beleza negra bem representada, certo? Acho que não, pois ao ler mais um pouco a respeito descubro que é a primeira vez que tivemos seis modelos legitimamente negras (representantes dos estados da Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Rondônia e São Paulo) disputando a final do concurso. Depois de 30 anos, é a segunda vez que uma negra recebe a coroa de miss.
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Confesso que fiquei incomodado. E resolvi “perder” algum tempo pensando e principalemente pesquisando sobre o seguinte assunto: representatividade. É isso mesmo, coisa simples: será que que em diversas áreas, desde concursos de beleza à cargos políticos, o número de representates reflete de alguma forma os números populacionais brasileiros? Então vamos lá, partindo de algo concreto: dados.

  1. Abri o site do IBGE (Censo 2010) e procurei os dados de sobre distribuição racial brasileira.
  2. Em seguida numa rápida pesquisa encontrei dados da Revista Congresso em Foco (TSE) e uma cartilha do Inesc – Instituto de Estudos Socioeconômicos.

distribuição racial população brasileira

distribuição racial congresso brasileiro

Acho que o resultado a gente já sabia né? Mas por algum motivo eu tive que fazer a pesquisa por mim mesmo, checando os dados e plotando os gráficos. Outro ponto importante é a educação superior. Pra quem tiver curiosidade, se atrevam a procurar números (sólidos) sobre as universidades brasileiras e tudo mais. A coisa é tão confusa que ninguém consegue transmitir as informações de forma confiável, perdidos entre sistemas de cotas e dados mascarados.

Eu particularmente me declaro negro. Sempre estudei em escola particular (graças ao esforço dos meus pais) e felizmente, tive e tenho muitas oportunidades na vida (mas muita gente não tem). O que não significa que nunca tive que lidar com preconceito e situações constrangedoras. Me considero privilegiado acima de tudo, por ter construído uma personalidade forte e a certeza de que sou o que sou, nem melhor e nem pior do que ninguém. Mas sempre foi evidente pra mim, que em vários daqueles ambientes que eu frequentava, desde a escola, a bares, ao meu grupo de amigos do intercâmbio, negros eram minoria. E falo isso por que precisamos entender a importância de falar sobre representatividade, igualdade, políticas e empreendimentos sociais.

Em tempos de tanto ódio, tanta gente “xingando no twitter”. Tanta “certeza” baseada em leitura de timeline de rede social, tem coisas que  não podem ser ignoradas. Temos que por certos assuntos em discussão, entendendo que a ideia não é criar inimizades ou extremismos. Algum tempo atrás ouvi um texto do Trevor Noah, comediante americano que costuma discutir de forma bem interessante os problemas, ainda alarmantes, da população negra (pricipalmente com a polícia  nos EUA):

Vivemos numa sociedade em que preconceito racial está tão disseminado por todas as partes que nem sequer notamos!? […] Se você defende algo pessoas te tratam como se automaticamente você fosse contra outra: Ou você gosta de gatos ou cachorros, torce pros Red Socks ou pros Yankees. Assumem que se você é a favor da polícia é contra dos negros ou vice-versa quando, na verdade, você pode ser a favor da polícia e dos negros!

Mas do que estavamos falando mesmo? Miss Brasil, né? Fiquei realmente feliz ao ver as seis lindas modelos negras na final do concurso. Mas ainda mais comovido, ao pensar na importância de usar oportunidades como essa para retomar questões que várias vezes evitamos discutir. Se a tão afamada beleza e cultura brasileira foi construída pela miscigenação, por que raios isso não se reflete nos vários âmbitos da nossa sociedade? E, mais do que isso, o que eu hoje posso fazer a respeito disso? Pode parecer uma discussão antiga, mas ainda muito mal resolvida. Eu falo sobre negros, mas poderia perfeitamente estar falando de falta de representatividade feminina, indígena e tantas outras mais. Não é “privilégio” do Brasil. Não vamos resolver preconceito da noite pro dia. Contudo, algo que com certeza podemos fazer é não achar que pessoas estão sendo loucas por se sentirem oprimidas numa sociedade que trata pessoas de forma diferente baseada na condição social, opção sexual ou cor da pele.

Engenheiro eletricista, professor de inglês, DJ, empreendedor, faixa roxa e instrutor de Jiu Jitsu, geek e, acima de tudo, caçador de sonhos!

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