Sr. Kim: A lição do porteiro

Segunda-feira. Acorda atrasado. Toma banho. Troca de roupa. Joga o livro na mochila. Arruma a cama. Toma café da manhã engolindo sem mastigar. Procura a chave. Pega a bike. Desce o elavador. Fica impaciente com a demora. Sai correndo. Monta na bike. Dá a primeira pedalada mas escuta a voz do porteiro…

Porteiro: Hello! Brazil? – Ele disse.

Eu: Esse velho de novo? Vai me atrasar… – pensei.
Hello! Yes, Brazil!

Porteiro: Soccer, nº1. Good!

Eu: Yes, nº 1.

Entre caixas e garrafas recicláveis, ele olhou novamente pra mim e abriu um grande sorisso. E num inglês quebrado me desejou um bom dia. Boom, um “soco na cara”. Aquele “tapa de luva”, como costumam dizer.
Eu estava desarmado. Minha pressa se foi. Não sei exatamente por que mas depois de um mês e meio entrando e saindo do prédio, eu tinha finalmente reparado naquele senhor. Vamos chamá-lo de Senhor Kim .

O Sr. Kim certamente tem mais de 60 anos e é o porteiro do meu prédio (parte dos milhões de idosos que por aqui tem que trabalhar pra continuar tendo uma vida digna). É responsável pela portaria e por organizar o lixo reciclável que os péssimos moradores do prédio não separam direito. Na primeira vez que tentou falar comigo o Sr. Kim me perguntou se eu era das Filipinas. Da segunda, perguntou se eu era vietnamita. Na terceira arriscou dizer que eu era do Paquistão. Eu não sei se adianta muito contar pra ele de onde sou. Mas o importante é que o Sr. Kim se atreve a gastar as poucas palavras do seu inglês sempre que passo por ele. No geral, coreanos não são muito de bom dia, com licença e desculpa. Mas o Sr. Kim vai na contramão, no ritmo dele, com uma alegria que até o dia de hoje eu certamente não tinha me dado conta.

Engraçado, por que justamente hoje eu fui reparar? Reparar que não era o Sr. Kim que precisava falar comigo. Que realmente, por mais que ele não lembrasse, ele não precisava saber de onde eu era. Era eu quem precisava da sinceridade e serenidade do sorriso daquele senhor. Eu quem precisava me lembrar que, acima de tudo, pessoas e um bom sorriso têm sempre importância.

smile-wall

Montei novamente na bike. Me despedi, ele sorriu novamente. E por alguns minutos pedalando fiquei pensando como a positividade daquele homem mudou a minha segunda feira. Logo eu que me acho sempre tão positivo. O Sr. Kim pode não ser nem de longe uma pessoa culta ou instruída. Mas é sempre bom lembrar que tem coisa que não se aprende em escola alguma. Dificilmente o Sr. Kim vai lembrar de onde eu sou, muito menos o meu nome. Com certeza amanhã e por mais alguns vários meses eu responderei as mesmas perguntas. Mas vou sempre olhar agradecido e retribuir àquele moço o sorriso. O sorriso e a energia que são capazes de trazer o sol na mais nublada das segundas-feiras.

Engenheiro eletricista, professor de inglês, DJ, empreendedor, faixa roxa e instrutor de Jiu Jitsu, geek e, acima de tudo, caçador de sonhos!

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