Uma vida em um ano de intercâmbio

De todos os tópicos sobre os que pensei em escrever o primeiro post tinha que ser sobre meu intercâmbio. Não tive muita dúvida, confesso, talvez porque ainda estou vivendo minha depressão-pós-volta. Não que eu esteja triste por ter voltado, mesmo porque, depois de um ano, eu estava com saudade de muita coisa do Brasil: minha família e amigos, a comida, o Eddie, o preço das frutas e verduras… Vivendo fora a gente conhece um monte de coisas diferentes e acaba valorizando também o voltar. Mas não tem como negar que já sinto saudade de tudo que vivi e do meu dia a dia desse um ano in the Land Down Under.

Fiz um intercâmbio pelo programa Ciências sem Fronteiras e morei em Sidney, na Austrália. Lá estudei por dois semestres na University of Technology, Sydney (a UTS) e fiz estágio por 9 semanas na Primo Smallgoods, afiliada da JBS na Austrália. Pois é, a gente vai com essa proposta e tem, sim, que estudar. Durante os dois semestres eu fiz relatórios, apresentações orais, trabalhos em grupo e individuais e provas com o conteúdo do semestre inteiro. Houveram noites viradas fazendo trabalho e dias inteiros dentro da universidade estudando para as provas e para, felizmente, passar nas oito matérias que fiz. Na minha opinião, a impressão de que intercambista vive viajando é pelo fato de que tiramos foto demais durante as viagens e quando estamos estudando, naquele momento de procrastinação, sempre rola uma fugidinha pro Instagram ou Facebook pra dar aquela conferida na vida alheia e que desperta a vontade de postar aquela foto “que ficou tão boa e eu ainda não postei”. E eu viajei bastante, é claro! Conheci a Nova Zelândia, o Japão, a China, Hong Kong, Tailândia, Cingapura e alguns lugares na Austrália como o deserto, o Outback. São todos diferentes de uma forma que fica quase impossível escolher o preferido. Enquanto morei lá eu quis aproveitar e conhecer o máximo de tudo então, como todo mundo, viajei em todas as férias e finais de semana que pude. E é mais ou menos esse o sentimento: a gente sabe que o intercâmbio tem data e hora pra acabar e quer aproveitar cada segundo como se fosse o último!

A Austrália é um país apaixonante! E no início eu, com meu um ano no curso de inglês e algumas letras de música traduzidas na cabeça tinha certeza que era a estrangeira alí. Lembro da primeira ida ao Macca’s (ou McDonalds, em qualquer outro lugar do mundo): eu pedi o lanche apontando pro cardápio “Hi, I want that one” e a moça me veio com um inglês quase impossível pra mim naquela hora “Okay! Is it to eat here or to take away?”. Depois da minha reflexão sobre o minhas habilidades com a segunda língua, uma amiga me ajudou a descobrir que a moça me questionou se eu queria o lanche para levar ou comer lá mesmo e tivemos o que seria minha primeira refeição totalmente em inglês – obrigada, amiga. Mas, com o tempo, a gente acostuma o ouvido e perde a vergonha mesmo. Descobri que lá existem (muito) mais estrangeiros e que o meu falar não era tão mal assim, meu mal era o meu medo. Foi assim também pra conhecer gente nova, provar novas comidas, pular de um precipício amarrada a uma cadeirinha no maior Swing do mundo, entrar no avião e deixar a zona de conforto. Dá medo, mas a gente também é louco o bastante pra tentar.

Com o tempo você se vê falando como eles, cumprimentando gente na rua, amando aquele lugar como se fosse o seu. Isso porque foi o que você conquistou – é seu sim! Como um amigo meu disse, foi uma vida em um ano e não um ano de minha vida. Eu saí de casa cheirosa e arrumada com a ajuda da mamãe e do papai e pousei num lugar onde não dominava nem a arte de atravessar a rua porque até o trânsito é diferente. E com um ano adquiri uma família, aqueles que estiveram do meu lado quando eu queria chorar de saudade ou para se preocupar comigo voltando pra casa sozinha depois daquela festa ou de uma noite na biblioteca estudando. Já tinha minha vizinhança, minhas preferências quanto a lugares a visitar, restaurantes, cafés e muito mais. Você se torna guia turístico pros amigos que conheceu em alguma viagem e se orgulha em apontar pra prédios e esquinas dizendo que foi ali que você fez qualquer coisa pela primeira vez.

Ousaria dizer que meu ano de intercâmbio foi o melhor da minha vida. Pela grande aventura, por ter enfrentado meus medos, por ter realizado sonhos e, principalmente, por ter vivido intensamente. Da primeira vez que usei uma torradeira elétrica daquelas que fazem o pão pular, os desesperos por não entender quase nada nas aulas, os dias que passei estudando dobrado por isso, até me ver andando no cruzamento mais movimentado do mundo, em Tóquio, comendo um escorpião na Tailândia e visitando a muralha da China, tudo foi intensamente aproveitado. Mergulhei de cabeça num mar de coisas novas e o que fez tudo tão maravilhoso foi um segredo milenar que carrego comigo: eu gastei meu tempo vivendo!

Curiosa, engenheira, independente e detalhista. Adora viajar, tirar fotos e mais um monte de coisas.

One Reply to “Uma vida em um ano de intercâmbio”

  1. E assim é a vida…

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